26.09.2016
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Família, Lifestyle

Sobre Amor e a Liberdade de Escolher Meu Café

Por Mariana Faria, colaboradora de Família e Lifestyle

Mesmo que os acontecimentos da vida, em um primeiro momento, não façam muito sentido, tudo tem uma razão para acontecer. Nem sempre é óbvio interpretar tudo o que ocorre ao nosso redor, ainda mais em situações de profunda dor.

(pausa para digerir o nó na garganta)

Perdi a minha filha.

Talvez, esse seja o sofrimento mais intenso que eu venha a suportar nessa vida. Em meus piores pesadelos, eu jamais cogitaria viver essa situação. Mas, eu vivi. E estou aqui. E quero continuar aqui. A cada respirar, percebo, pouco a pouco, que ainda há motivos para continuar seguindo em frente. É normal que muitas pessoas pensem que não é possível sobreviver a um evento desses, que é antinatural, já que não há, sequer, adjetivo atribuível a uma mãe que perde o seu filho. Eu mesma já pensei assim, achei que não conseguiria sobreviver. De fato, eu não nego, é antinatural e não há palavras capazes de traduzir essa dor, que chega a ser sufocante. Porém, eu afirmo, de todo o meu coração, mesmo com a alma dilacerada e com um pedaço faltando em mim: é possível seguir adiante. Digo mais, é possível ser feliz e sorrir novamente.

“Eu não serei a primeira. Eu não serei a última. Eu não sou a única”.

Esse tem sido, nos últimos dias, o meu mantra contra qualquer revolta que possa surgir em meu coração. Ainda que, ao longo do caminho, daqui para frente, haja momentos de queda e, até mesmo, de desespero, sempre haverá razões para continuar. E, pasmem: se, lá no passado, me dessem a chance de escolher ser ou não a mãe dela, a resposta seria sempre afirmativa. Sempre.

Aos poucos, começo a perceber o sentido da vida da Sofia em minha própria vida. Eu poderia passar o resto dos meus dias, falando sobre como eu renasci com ela, à 1:20h. da madrugada, do dia 17.06.2015. A sua existência, nesse plano, foi tão curta, mas, ao mesmo tempo, tão intensa, que foi capaz de operar mudanças significativas na vida de pessoas que, nem mesmo, chegaram a conhecê-la pessoalmente.

Por vezes, estamos tão acorrentados a uma certa realidade, que somente um acontecimento muito profundo é capaz de nos libertar. Deus (ou qualquer outro ente, dependendo da religião ou crença que se tenha), durante o percurso, vai nos enviando sinais de que determinadas escolhas, talvez, não sejam as mais acertadas. Mas a gente não vê, a gente não quer ver e continua e continua e vai continuando, até que não se reconhece mais no espelho.

Sabe aquela expressão “o amor é cego”? Então, tudo mentira. Não é o amor que é cego, pelo contrário. O amor é aquele sentimento que permanece, apesar dos defeitos da outra parte. Em verdade, são os nossos preconceitos, as nossas fraquezas, a relativização de nossa autoestima, a nossa criação patriarcal, segundo a qual uma mulher somente se define com um homem ao seu lado, e uma série de outros fatores, que não nos permitem tomar a iniciativa de abandonar o barco, antes de afogar o nosso coração em mágoas e ressentimentos, ainda que se tenha, desde o início, todas as evidências de que aquele final não seria feliz.

“O amor tudo suporta”, essa é a mais pura verdade. Eu pude vivenciar isso de modo bastante intenso, enquanto tive o privilégio de ser, fisicamente, mãe da Sofia. O problema é que, muitas vezes, não estamos diante do amor e tal discernimento nem sempre é tão claro. Bem, no meu caso, o processo de libertação precisou passar por ter uma filha com necessidades especiais, que faleceu, em meus braços, com um ano e três meses de vida. Sofia significa “sabedoria”, mas poderia significar, também, “liberdade”…

Eu, que, por comodismo, fragilidade emocional ou sei lá o quê, sempre permiti que alguém decidisse tudo por mim, me vi diante de uma circunstância em que precisaria brigar, ainda que sozinha, pela vida e pelo bem estar da minha filha.

Veja bem, deixar que outra pessoa tomasse as rédeas da minha vida, dos meus projetos, dos meus sonhos, antes de mais nada, era uma responsabilidade minha. Não estou, aqui, culpando quem quer que seja, porque, no final das contas, só fazem conosco aquilo que permitimos. Mas, ao mesmo tempo, passou a ser responsabilidade minha me libertar de todas as amarras e, a par da opinião alheia, tomar as decisões acerca dos procedimentos e terapias necessários à preservação da saúde dela.

Sofia era eu e eu era ela. Eu sabia que ela precisava mais de mim do que de qualquer outra pessoa. E eu, que não sabia, nem mesmo, escolher o meu próprio café, precisei, do dia para noite, ser a sua voz, os seus braços, as suas pernas, o seu grito de socorro, o seu sinal de fome, de sede e de felicidade. Foi inevitável: de quatro pessoas, passamos a ser três: eu, ela e o João Gustavo. E, de três, passamos a ser infinitas, porque a quantidade de pessoas que passaram a rezar, a torcer e a enviar energias positivas para a Sofia foi inestimável.

Conheci e me reaproximei de pessoas incríveis. A dor, se possui um lado bonito, é justamente este: aproximar pessoas muito especiais. Eu fui presenteada com vários anjos em meu caminho, que me estenderam a mão, quando eu havia caído, que me disseram o tamanho da minha força, quando eu não conseguia enxergá-la, que me deram o abraço mais precioso, quando eu queria desmoronar. Ah! Descobri o poder de um abraço sincero. Ele cura, sabiam?

Lembro-me, que, de repente, me vi discutindo concentração de medicação com a farmacêutica (“Você está calculando 25 mg/ml, mas é 5mg/ml. Querida, você está confundindo a concentração da solução com a do comprimido da hidroclorotiazida”; “Florzinha, se há 4.000 U.I de eritropoietina em 1 ml e ela precisa de 2.000 U.I., basta puxar 0,5 ml na seringa”). Passei a conversar de igual para igual com os médicos (“Então, queria discutir a prescrição do Fentanil, ela está, nitidamente, sentindo dor. É melhor fazer o desmame com a Metadona de modo mais lento”, “Olha, essa prescrição não me parece a melhor, porque se o carbonato de cálcio for administrado com a vitamina, vai fosforilar”, “Desculpe, mas não posso concordar com a prescrição do captopril, pelo efeito colateral de aumentar o potássio. Melhor manter a hidralazina mesmo, pode confirmar com a nefrologista”, “Desculpe, mas poderia pedir um soro sem potássio para a H.V.? Esse aí não serve, desculpa”, “A fração de ejeção do ECO melhorou”, “Você verificou se a furosemida tem interação medicamentosa com essa substância aí? A furosemida é sensível”, “Calma, sem desespero, esse potássio em nível 6,0 está normal. Ela aguenta até 8,5, sem arritmia. Pede um Salbutamol venoso, que está resolvido”).

Eu me vi comprando uma agulha de insulina de cada marca e aplicando todas em minha própria perna, a fim de descobrir qual doía menos. Se ela era dependente de uma medicação injetável, que fosse providenciada a agulha que doesse menos. Eu amei aquele bebê mais do que a mim mesma.

Eu estaria disposta a empurrar uma cadeira de rodas para o resto da vida, se preciso fosse. Eu abriria mão de tudo para cuidar dela, como, de fato, eu fiz. A felicidade dela não estava acima da minha, mas se confundia com a minha própria felicidade. E, quando Sofia, subitamente, partiu, em um primeiro momento, eu questionei bastante pelo fato de nunca ter negado, à minha filha, todo o meu amor, apesar de todos os percalços. Por que, se eu sempre estive disposta a tudo? Por que, se eu jamais questionei o fato de ter sido escolhida para ser mãe de uma menininha especial? Por que, se eu daria a minha vida por ela? Por que, se eu só tinha orgulho de ser mãe daquela princesa?

Então, a ficha caiu. Lembrei de uma conversa recente, que tive com um amigo muito especial, um dos anjos que cruzaram o meu caminho. Quando tentávamos marcar um café, eu sempre tinha uma dificuldade enorme para escolher o lugar. Decidir o que pedir, então, nem se fala. Sempre que era intimada a tomar uma decisão, ainda que mínima, minhas mãos chegavam a suar. Ele percebeu, logo de cara, essa minha dificuldade e, só por isso, sempre me deixava com a responsabilidade de escolher onde iríamos.

A prova maior de sua amizade foi querer, com esse gesto tão simples, mas tão verdadeiro, que eu fosse livre e descobrisse o melhor de mim. Amor, carinho e amizade, na realidade, são isso: querer que a outra pessoa seja livre, plena, inteira. Qualquer coisa diferente disso é posse ou qualquer outro sentimento não saudável, para não dizer doentio. Era inevitável lembrar de todo o tempo em que eu permiti que fizessem as minhas escolhas, desde as mais simples, até as mais complexas, envolvendo meus planos e sonhos mais íntimos.

Concomitantemente, lembrava de tudo o que fui capaz de fazer e decidir sozinha em prol da minha filha, em consequência do amor inenarrável que eu senti – e sinto – por ela. E eu entendi, finalmente, um dos infinitos sentidos para a existência da Sofia em minha vida: me libertar, evidenciar as minhas potencialidades e me fazer crer, pela primeira, vez, na minha própria força. Ainda que tudo se resuma à indescritível liberdade de escolher eu mesma um lugar para sentar e tomar um café, cada segundo ao lado dela valeu a pena.

Ainda que eu pudesse mover montanhas, nada do que fizesse chegaria perto do que ela fez por mim.

22.09.2016
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Lifestyle

Por Que Eu Vou Fazer Uma Detox de Informação – e Você Deveria Fazer Também

detox_informacao_tecnologia_produtividade

 

Há algum tempo eu percebo que a minha capacidade de absorção das informações, de crítica em cima das informações que eu recebo e de produzir criativamente está prejudicada. Antes achava que o problema estava no cansaço, na má alimentação, na forma com que eu lidava com os desafios do dia a dia. E embora eu até ache que esses pontos da minha vida merecem uma revisão séria e madura da minha parte, sempre senti que não era só isso. Eu sinto literalmente meu cérebro fritando, dando tilt. Sabe aquele computador 486 que você tinha em casa (olha eu novamente denunciando minha idade nos posts) que do nada começava a esquentar, ficar lento e puft, apagava, reiniciava sozinho ou empacava no meio daquela apresentação do PowerPoint (que você rezava para ter salvo)?

Pois é. Meu cérebro tá dando sinais de 486.

A verdade é que lidamos o tempo todo com uma avalanche de informações: pedaços de textos, fotos, sinais, símbolos, mensagens, pedidos de resposta, e-books gratuitos, vídeos no Youtube que prometem curar de frieira no pé até a paz mundial.

O que acabamos esquecendo é que todas essas informações passam pelo nosso cérebro, que insiste em fazer uma filtragem automática do que deve ser memorizado e daquilo que pode ser esquecido. E o que acontece? A cada ‘trabalho’ do seu cérebro nesse sentido, você perde um pouquinho da energia mental e física que deveria guardar para as atividades realmente importantes. No fim do dia, estamos todos cansados, com a sensação de que vimos muitas coisas mas não vimos nada, de que tudo passou por nós, mas nada absorvemos. Não é incomum ficar com a sensação de vazio e frustração depois de um caos mental como esse.

Temos medo de perder essas informações que são jogadas no nosso colo e na nossa timeline. O tal do FOMO – Fear of Missing Out, ou medo de ficar de fora, em português, é quase uma síndrome, um mal moderno: temos medo de nos sentir excluídas, alienadas do resto da sociedade. Ficamos com a eterna sensação de que, se não soubermos de tudo o que acontece aqui e agora, se não fizermos todos os cursos disponíveis no mercado, se não assistirmos a todos os canais dos empreendedores mais fantásticos da internet… seremos engolidas por nossas concorrentes, nossas amigas, nossas colegas, pelo resto da sociedade… enfim, deu para entender a ansiedade que isso causa. Mas será mesmo que absorver toda e qualquer informação nos faz melhores na vida pessoal e no que fazemos no trabalho?

Não é o que parece. Esse tsunami de dados – tanto inúteis quanto supostamente úteis – pode causar o tal tilt cerebral que eu falei. Fadiga, estresse, falta de foco, de concentração, prejuízos à produtividade e até à sua vida social, já que você já cozinhou a sua cabeça com tanto texto e vídeo e não tem mais vontade de sair para escutar outra pessoa falando no seu ouvido. Tudo isso pode acontecer com você quando se entope desse universo do “você-precisa-saber-de-tudo-agora”, sem respeitar seu tempo, seu sono e sua saúde. Falo isso por experiência própria.

Além dos problemas mentais e relacionais que essa questão da overdose de tecnologia e informação podem proporcionar, vivemos também a era dos eternos estudantes e a era dos especialistas em nada. Ou você lê quinhentos milhões de livros e nunca se aprofunda em nada, sem conhecimento mais técnico e embasado sobre o tema com o qual escolheu trabalhar, ou passa a vida inteira estudando, estudando, estudando… sem nunca colocar nada em prática, em um verdadeiro vício pela informação pura, sem querer aplicá-la no mundo real.

Você já se sentiu dessa forma em algum momento da sua vida?

Eu já. Eu considero que coloco muito do que eu aprendo em prática, mas o meu problema é outro: é a vontade de seguir aprendendo e absorvendo informação sem parar para descansar e organizar minha rotina e um tempo para o NADA. Isso mesmo que você leu. Eu tenho dificuldade em descansar de forma correta, de forma que eu me sinta energizada para recomeçar. Hoje em dia, eu tenho acordado cansada e eu acho isso surreal. Por isso, resolvi fazer uma detox de informação e tecnologia e vou dividir isso aqui com vocês.

No próximo post sobre o tema, vou escrever o que eu decidi adotar nessa detox para reeducar meu cérebro e dar um descanso para minha mente. Enquanto isso, me diz: você já sentiu necessidade de fazer um detox de tecnologia e de informação? Você acessa muito a internet? Como faz para lidar com todas as mídias sociais, jornais e emails que chegam todos os dias? Um beijo!

 

21.09.2016
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Família, Lifestyle

Por Que Ainda Falamos da Jennifer Aniston?

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Bom, não sei se você acompanha as fofocas hollywoodianas, mas parece que oficialmente o casal Brad Pitt e Angelina Jolie vai se divorciar. Uma amiga me disse que estava vendo a CNN e até pararam uma reportagem séria para anunciar isso (juro, coisa de “Breaking News”). Embora eu mesma tenha feito minhas piadas e dado risada com os memes que circulam pela internet, isso me levantou uma pulga: por que raios ainda insistimos que a Jennifer Aniston, a ex do ator, estaria interessada no que acontece ou deixa de acontecer com o ex-encosto-falecido-aquele-que-não-se-diz-o-nome (ou coloque aqui qualquer outra expressão que você usa para falar daquele ex que foi embora e você deu graças a Deus)?

Continuamos de forma inconsciente (ou de forma bem explícita mesmo) a colocar a mulher como dependente do sucesso de um casamento. Como se a sua felicidade estivesse eternamente ligada a um casamento, ainda que ele tenha sido infeliz, ainda que ele tenha terminado em traição. Continuamos a enxergar a mulher como a amarga que fica ruminando tudo e qualquer coisa que acontece com o ex-marido depois dela, como se ela não tivesse mais nada para fazer. E mais: cobrança pesada em cima da mulher para que ela ‘siga com a sua vida’: o ex casou? Cadê um novo casamento para ela? O Brad tem filho com a Angelina? OMEUDEOS, por que a Jennifer não engravidou ainda?! O que mais tem é capa de revista de tablóide nos últimos anos, cantando a notícia inédita de que Jennifer estaria grávida. Mas não estava e o povo chora. Coitada dela, né, nunca superou o fim do casamento e agora tá vitoriosa! Olha, tá dançando a Ragatanga porque o Brad tomou um pé no popô rico e bonito dele. Será?

A mulher é rica, é gata, é independente e tá noiva de um cara tão gato quanto ela. Fez vários filmes, é super respeitada em Hollywood, tem amigos, tem uma casa linda, viaja, TEM UMA VIDA! E as pessoas continuam a falar do casamento dela com o Brad Pitt, minha gente, que acabou há ONZE anos. Mas será que se a Jennifer tivesse traído o Brad Pitt com outro cara e terminado o casamento, as coisas seriam da mesma forma? Será que passaríamos onze anos dizendo que o Brad precisava arrumar sua vida, casar, ter filhos? Será que todo mundo olharia para ele e diria “aí vai o cara traído, coitado, nunca superou”. Hum, muito provável que não, né.

Mas o que tudo isso nos ensina?

Acho que a nossa sociedade ainda não consegue ver o fim de um casamento como uma coisa normal. E isso é papo para outro post, né, gera um textão, depois eu converso com você sobre isso. Mas olha, o que mais me impressiona nesse caso é ver como a mulher carrega ainda o estigma da “mulher separada”. Como ainda existe machismo nos nossos pensamentos e como ainda julgamos que a mulher precisa estar para sempre conectada a um relacionamento, ainda que ele não tenha sido feliz. Acho que ainda precisamos aprender muito sobre relacionamentos saudáveis e sobre a independência e empoderamento femininos.

E você, o que achou dessa situação toda? E o que acha dessa reflexão sobre mulheres e o pós-casamento? Deixa aqui seus comentários que vamos conversando. Beijo!

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